Cafeína na gestação e na amamentação: quanto é seguro consumir?
O café faz parte da rotina de milhões de brasileiros. Durante a gestação e a amamentação, porém, surgem muitas dúvidas: é necessário eliminar completamente a cafeína? Existe uma quantidade segura? Ela está presente apenas no café?
A resposta para a última pergunta é não. A cafeína também pode ser encontrada em chá-mate, chá-preto, chá-verde, refrigerantes à base de cola, bebidas energéticas, chocolates, cacau em pó, suplementos e alguns medicamentos.
Por isso, controlar o consumo de cafeína não significa apenas contar quantas xícaras de café foram ingeridas. É necessário considerar todas as fontes consumidas ao longo do dia.
O que acontece com a cafeína durante a gestação?
A cafeína é rapidamente absorvida pelo organismo materno e atravessa livremente a placenta, alcançando a circulação fetal. Como o feto ainda não possui capacidade plenamente desenvolvida para metabolizá-la, sua eliminação ocorre de forma mais lenta.
Durante a gestação, o metabolismo materno da cafeína também se torna mais lento, principalmente no terceiro trimestre. Isso faz com que a substância permaneça por mais tempo no organismo.
O consumo elevado de cafeína tem sido associado, em estudos observacionais, a maior risco de perda gestacional, baixo peso ao nascer e restrição do crescimento fetal. Entretanto, os resultados não são uniformes e não permitem estabelecer uma quantidade totalmente isenta de risco para todas as gestantes.
Por essa razão, as principais diretrizes recomendam limitar o consumo, embora não adotem exatamente o mesmo valor.
Qual é a recomendação para gestantes?
O American College of Obstetricians and Gynecologists, o ACOG, considera moderado o consumo inferior a 200 mg de cafeína por dia. Segundo a entidade, essa quantidade não parece contribuir de forma relevante para o risco de aborto espontâneo ou parto prematuro, embora ainda existam incertezas sobre outros desfechos da gestação.[1]
A European Food Safety Authority, a EFSA, também conclui que a ingestão de até 200 mg por dia, considerando todas as fontes alimentares, não suscita preocupação de segurança para o feto.[2]
O National Health Service, o NHS, do Reino Unido, orienta igualmente que gestantes não ultrapassem 200 mg de cafeína por dia.[3]
A Organização Mundial da Saúde adota outra forma de apresentar a recomendação. A OMS orienta que gestantes com ingestão elevada, definida como superior a 300 mg por dia, reduzam o consumo para diminuir os riscos de perda gestacional e baixo peso ao nascer. Esse valor não deve ser interpretado como uma garantia de segurança abaixo de 300 mg, mas como o ponto a partir do qual a OMS recomenda expressamente a redução.[4]
No Brasil, o Protocolo de Uso do Guia Alimentar para a População Brasileira na Orientação Alimentar de Gestantes, publicado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade de São Paulo, adota uma recomendação mais conservadora: não ultrapassar 100 mg de cafeína por dia.[5]
Portanto, as diretrizes apresentam limites diferentes:
Ministério da Saúde: até 100 mg por dia;
ACOG, EFSA e NHS: até 200 mg por dia;
OMS: recomenda reduzir o consumo quando a ingestão ultrapassa 300 mg por dia.
Para gestantes brasileiras, a referência de até 100 mg por dia representa a orientação oficial mais conservadora. Quando essa meta não for viável, manter o consumo abaixo de 200 mg por dia está de acordo com importantes diretrizes internacionais.
Na prática, esses valores podem ser alcançados rapidamente. Um café pela manhã, um chocolate após o almoço e um chá-mate à tarde já contribuem para a ingestão total.
Por isso, não basta considerar apenas o café. Todas as fontes de cafeína devem ser contabilizadas.
E durante a amamentação?
A cafeína passa para o leite materno em pequenas quantidades. A maioria dos bebês não apresenta efeitos adversos quando a mãe mantém um consumo moderado. Entretanto, recém-nascidos e, principalmente, bebês prematuros metabolizam a cafeína mais lentamente e podem ser mais sensíveis aos seus efeitos.
O ACOG informa que o consumo de aproximadamente 200 mg por dia durante a amamentação provavelmente não afeta a maioria dos bebês. A entidade recomenda atenção especial nos primeiros dias após o nascimento e quando o bebê é prematuro.[6]
A EFSA também considera que o consumo de até 200 mg por dia, proveniente de todas as fontes, não apresenta preocupação de segurança para o bebê amamentado.[2]
O Centers for Disease Control and Prevention, o CDC, classifica como baixa ou moderada a ingestão de até 300 mg por dia durante a amamentação. O órgão observa, porém, que consumos muito elevados podem estar associados a irritabilidade, agitação, tremores e dificuldade para dormir no bebê.[7]
Como as recomendações variam, a conduta mais prudente é manter o consumo em até 200 mg por dia durante a amamentação, especialmente nos primeiros meses de vida. O limite de 300 mg citado pelo CDC pode ser usado como teto máximo para mulheres cujos bebês não apresentem sinais de sensibilidade.
Caso o bebê fique mais irritado, agitado ou tenha dificuldade para dormir, é importante avaliar o consumo materno de cafeína e considerar sua redução.
Onde a cafeína está presente?
As principais fontes alimentares de cafeína incluem:
Café coado;
Café expresso;
Café solúvel;
Chá-mate;
Chá-preto;
Chá-verde;
Refrigerantes à base de cola;
Bebidas energéticas;
Chocolate;
Cacau em pó;
Achocolatados;
Suplementos alimentares;
Alguns medicamentos para dor de cabeça, gripe e resfriado.
A quantidade de cafeína pode variar significativamente conforme o tipo de grão, o método de preparo, o tempo de infusão, a marca, o tamanho da porção, a concentração da bebida e o teor de cacau do alimento.
É necessário eliminar completamente a cafeína?
Na maioria dos casos, não. As diretrizes não determinam a exclusão completa da cafeína para todas as gestantes ou mulheres que amamentam.
O mais importante é conhecer a quantidade consumida ao longo do dia, contabilizar todas as fontes e respeitar o limite definido em conjunto com o profissional responsável pelo acompanhamento.
Mulheres que apresentam ansiedade, palpitações, refluxo, náuseas, dificuldade para dormir, hipertensão ou maior sensibilidade à cafeína podem precisar de uma redução adicional.
Também é possível diminuir a ingestão com algumas medidas simples:
Reduzir gradualmente a quantidade de café;
Alternar café comum e descafeinado;
Preparar bebidas menos concentradas;
Reduzir o tamanho das porções;
Evitar bebidas energéticas;
Conferir a composição de medicamentos e suplementos;
Evitar o consumo próximo ao horário de dormir;
Observar alterações no comportamento e no sono do bebê.
A redução gradual pode ser mais confortável para quem consome cafeína habitualmente, pois a interrupção abrupta pode causar dor de cabeça, sonolência e irritabilidade.
A orientação deve ser individualizada e considerar os hábitos alimentares, os sintomas, as condições clínicas, a idade gestacional e a resposta do bebê durante a amamentação.
Em vez de proibições desnecessárias, o objetivo é promover escolhas conscientes, prudentes e baseadas nas melhores evidências disponíveis.
Gestantes, mulheres que pretendem engravidar ou que estão amamentando devem procurar acompanhamento profissional quando tiverem dúvidas sobre sua alimentação. A orientação individualizada ajuda a proteger a mãe e o bebê sem excluir desnecessariamente alimentos e bebidas que fazem parte da rotina.
Referências
AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS — ACOG. Moderate caffeine consumption during pregnancy. Committee Opinion n. 462. Washington, DC: ACOG, 2010. Reafirmado em 2023.
EUROPEAN FOOD SAFETY AUTHORITY — EFSA. Scientific opinion on the safety of caffeine. EFSA Journal, v. 13, n. 5, art. 4102, 2015. DOI: 10.2903/j.efsa.2015.4102.
NATIONAL HEALTH SERVICE — NHS. Foods to avoid in pregnancy. London: NHS. Consultado em 28 jul. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION — WHO. Restricting caffeine intake during pregnancy. Geneva: World Health Organization, 2023. Baseado nas recomendações da OMS para cuidados pré-natais.
BRASIL. Ministério da Saúde; UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Fascículo 3: protocolos de uso do Guia Alimentar para a População Brasileira na orientação alimentar de gestantes. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2021. ISBN 978-65-5993-088-3.
AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS — ACOG. Breastfeeding Your Baby. Washington, DC: ACOG. Disponível em: https://www.acog.org/womens-health/faqs/breastfeeding-your-baby. Acesso em: 28 jul. 2026.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION — CDC. Maternal diet and breastfeeding: caffeine. Atlanta: CDC, atualizado em 27 mar. 2026.
UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE — USDA. FoodData Central. Beltsville: Agricultural Research Service, National Agricultural Library. Base de dados de composição de alimentos. Consultada em 28 jul. 2026.
UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE — USDA. USDA National Nutrient Database for Standard Reference Legacy: caffeine content of foods. Beltsville: Agricultural Research Service, 2018.
