Durante a gestação, ganhar peso é esperado e faz parte de um processo natural. O corpo da mulher passa por muitas adaptações para favorecer o crescimento do bebê, incluindo aumento do volume de sangue, crescimento do útero, formação da placenta, maior reserva de energia e desenvolvimento das mamas para a amamentação.
Por isso, o objetivo do acompanhamento nutricional na gestação não é “controlar o corpo” ou buscar um padrão estético. O foco é cuidar da saúde da mãe e do bebê, respeitando a individualidade de cada mulher.
No entanto, quando o ganho de peso acontece muito acima do recomendado, ele pode aumentar o risco de algumas complicações. E isso não acontece apenas porque o número na balança subiu. Existe uma explicação fisiológica por trás desse processo.
Quando há maior acúmulo de gordura corporal, o tecido adiposo passa a funcionar de forma mais ativa no organismo. Além de armazenar energia, ele também produz substâncias inflamatórias e hormonais que podem interferir no metabolismo da gestante.
A gestação, por si só, já é um período em que o corpo modifica o uso da glicose, das gorduras e da insulina para garantir energia ao bebê. Quando há excesso de gordura corporal, essas adaptações podem se intensificar. Com isso, pode ocorrer maior resistência à insulina e maior disponibilidade de glicose e gorduras no sangue materno.
Esses nutrientes chegam ao bebê por meio da placenta. Quando estão em excesso, podem favorecer um crescimento fetal maior do que o esperado, aumentando o risco de macrossomia, ou seja, bebê com peso elevado ao nascer. Essa condição pode estar associada a maior chance de parto cesáreo, dificuldades no parto e necessidade de cuidados neonatais.
Além disso, esse ambiente metabólico e inflamatório pode contribuir para maior risco de diabetes gestacional, alterações na pressão arterial e outras complicações durante o pré-natal.
Por isso, acompanhar o ganho de peso durante a gestação é uma estratégia de cuidado, prevenção e promoção de saúde. Não se trata de colocar a gestante em dieta restritiva, cortar grupos alimentares ou gerar culpa. Pelo contrário: o acompanhamento nutricional deve oferecer orientação segura, acolhedora e individualizada.
Na prática clínica, o nutricionista avalia o peso antes da gestação, o ganho de peso ao longo das semanas, os exames laboratoriais, os sintomas, a rotina alimentar, a presença de náuseas, azia, constipação, compulsão alimentar, insegurança alimentar e outros fatores que podem interferir na alimentação.
Com base nessa avaliação, é possível propor ajustes reais e possíveis, respeitando a rotina da gestante e garantindo os nutrientes necessários para essa fase. Pequenas mudanças na qualidade da alimentação, na organização das refeições e na escolha dos alimentos podem fazer grande diferença para a saúde materna e fetal.
O mais importante é lembrar: gestação não é momento de culpa, medo ou cobrança estética. É um período que exige cuidado, escuta e orientação baseada em evidências.
O ganho de peso deve ser acompanhado porque ele conta uma parte da história da saúde gestacional, mas nunca deve ser avaliado de forma isolada. Cada mulher tem uma trajetória, um corpo, uma rotina e uma necessidade específica.
Buscar acompanhamento nutricional durante o pré-natal é uma forma de cuidar da mãe, favorecer o desenvolvimento saudável do bebê e tornar essa fase mais segura, consciente e acolhedora.
Referência
Goldstein RF, Abell SK, Ranasinha S, et al. Gestational weight gain and risk of adverse maternal and neonatal outcomes in observational data from 1.6 million women: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2025;391:e085710. doi:10.1136/bmj-2025-085710.
